ODS 13 e ODS 15 — Clima, biodiversidade e recursos naturais: proteger o planeta será também uma nova forma de desenvolver a economia

Da série: O QUE VEM POR AÍ EM 5 ANOS? E OS ODS DA ONU?

Nos artigos anteriores desta série, venho procurando cruzar as novas tecnologias nos próximos cinco a dez anos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU como uma espécie de referência para compreender as grandes transformações que já estão em andamento.

Tenho insistido em uma ideia central, com uma linguagem “não teconológica”: a Inteligência Artificial, a automação, a robótica, os drones, os sensores, os satélites e a digitalização mudarão profundamente a economia, o trabalho e a vida das pessoas, mas a tecnologia, sozinha, não determinará se construiremos uma sociedade melhor.

Isso dependerá das decisões que tomarmos sobre como utilizar os ganhos de produtividade, como distribuir riqueza, como preparar as pessoas para novas formas de trabalho e, principalmente, como proteger as condições ambientais que tornam possível a própria vida e toda a atividade econômica.

Chego agora a dois temas que estarão no centro das grandes discussões dos próximos anos: o ODS 13 — Ação Contra a Mudança Global do Clima e o ODS 15 — Vida Terrestre, que tratam da proteção, recuperação e uso sustentável dos ecossistemas terrestres, das florestas, dos solos, da biodiversidade e dos recursos naturais.

Durante muito tempo, desenvolvimento econômico e proteção ambiental foram apresentados como interesses opostos, como se fosse necessário escolher entre crescimento, emprego e produção ou florestas, rios, biodiversidade e clima. Essa separação já faz cada vez menos sentido.

Não haverá agricultura sem solo, água e condições climáticas minimamente previsíveis e nem turismo sustentável em regiões naturais destruídas; não haverá uma economia próspera se os custos ambientais e sociais da degradação continuarem crescendo.

Por isso, proteger, recuperar e utilizar de forma sustentável os recursos do planeta será também uma nova forma de fazer economia. Clima e natureza deixarão definitivamente de ser apenas temas ambientais para se transformarem em temas de desenvolvimento econômico, geração de empregos, infraestrutura, saúde, alimentação, segurança e qualidade de vida.

A mudança climática, aliás, já deixou de ser uma discussão distante. Durante muitos anos, falamos sobre o aumento da temperatura do planeta como algo que produziria consequências principalmente no futuro. Agora, os efeitos já fazem parte da realidade e, nos próximos cinco a dez anos, a adaptação será uma prioridade para governos, empresas e populações.

Eventos climáticos extremos, chuvas intensas, períodos de seca, ondas de calor, incêndios e outros fenômenos exigirão uma capacidade muito maior de prevenção e resposta. Não será suficiente reduzir emissões; teremos que adaptar cidades, sistemas produtivos, infraestruturas e serviços públicos a uma realidade climática mais instável.

É nesse ponto que a tecnologia terá um papel decisivo. Satélites acompanharão grandes áreas ambientais, drones serão utilizados para monitorar florestas, áreas de risco e incêndios, sensores fornecerão informações sobre rios, solos, temperatura e condições urbanas, enquanto sistemas de Inteligência Artificial analisarão enormes quantidades de dados para identificar padrões e antecipar riscos.

Com sensores e IoT, uma cidade poderá reagir mais rapidamente a informações sobre chuvas intensas, uma região agrícola poderá receber dados mais precisos sobre o solo e o clima, e uma área ambiental poderá ser acompanhada de forma muito mais eficiente do que seria possível apenas com fiscalização presencial.

Mas é importante entender os limites dessa revolução tecnológica. A tecnologia não impedirá a chuva, não controlará o clima e não substituirá a natureza. Ela aumentará nossa capacidade de compreender, antecipar e tomar melhores decisões. Um algoritmo poderá identificar uma área com risco de inundação, mas será necessário realizar obras, melhorar a drenagem, recuperar rios, proteger encostas e garantir condições adequadas de moradia.

Um sistema vai identificar desmatamento, mas será necessário fiscalizar, criar alternativas econômicas sustentáveis e garantir políticas públicas. A tecnologia será cada vez mais importante, mas a responsabilidade continuará sendo humana.

A Inteligência Artificial terá um papel especialmente relevante porque clima, florestas, cidades e sistemas produtivos são extremamente complexos. Existem milhares de variáveis interligadas, e a capacidade humana de analisar informações isoladamente tem limites. A IA será utilizada para analisar dados provenientes de satélites, sensores, estações meteorológicas, drones e diferentes bases de informação, ajudando pesquisadores, governos e empresas a compreender melhor determinados fenômenos.

Na agricultura, poderá apoiar decisões relacionadas ao clima, à irrigação e ao solo; no setor público, ajudará a identificar áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos; na gestão ambiental, vai acompanhar alterações na cobertura vegetal e sinais de degradação.

Ao mesmo tempo, quanto maior for nossa dependência de sistemas digitais, maior será a necessidade de garantir qualidade dos dados, transparência, segurança e capacidade humana de avaliar decisões. A Inteligência Artificial não vai substituir completamente a inteligência humana em questões tão complexas. Os sistemas serão cada vez mais poderosos, mas a responsabilidade sobre as decisões continuará sendo das pessoas e das instituições.

O ODS 15 também nos obriga a rever uma ideia importante: a natureza não existe fora da economia. A natureza é parte da economia. Florestas ajudam a regular ciclos da água, protegem solos, influenciam o clima e abrigam uma enorme biodiversidade. Essa biodiversidade será cada vez mais importante para a ciência e para a inovação, especialmente em áreas como biotecnologia, novos materiais, medicamentos, alimentos e processos industriais.

O Brasil possui, nesse campo, uma oportunidade extraordinária. Temos biodiversidade, florestas, universidades, centros de pesquisa e empresas capazes de desenvolver novas tecnologias. O desafio será transformar esse patrimônio em conhecimento, inovação, emprego e desenvolvimento sem repetir modelos predatórios que simplesmente extraem recursos e deixam poucos benefícios para as populações e territórios envolvidos.

As florestas do futuro serão cada vez mais monitoradas por satélites, drones, sensores e plataformas digitais. Vamos conhecer melhor grandes territórios e acompanhar transformações quase em tempo real. A tecnologia precisará ser combinada com fiscalização, políticas públicas, participação das comunidades e alternativas econômicas capazes de gerar renda sem destruir aquilo que queremos preservar.

A agroindústria será um dos setores mais diretamente afetados por essas mudanças. Produzir alimentos continuará dependendo de elementos que nenhuma tecnologia consegue eliminar: solo, água, clima e condições ambientais. Mas a agricultura será cada vez mais precisa. Drones acompanharão plantações, sensores informarão as condições do solo, sistemas inteligentes ajudarão a definir o momento adequado para irrigação e utilização de insumos, enquanto máquinas automatizadas realizarão muitas tarefas.

A Inteligência Artificial ajudará a analisar dados e melhorar decisões. Isso vai aumentar a produtividade e reduzir desperdícios, mas o objetivo não pode ser simplesmente produzir mais. Teremos que produzir melhor, utilizando menos água quando possível, protegendo o solo, reduzindo desperdícios e recuperando áreas degradadas.

Essa transformação também muda o trabalho rural. Atividades manuais e repetitivas serão reduzidas pela automação, enquanto crescerá a necessidade de operadores de drones, técnicos em agricultura de precisão, profissionais de manutenção, especialistas em dados e pessoas capazes de trabalhar na integração entre conhecimento agrícola e tecnologia.

O grande desafio será preparar trabalhadores para essa transição. Não basta criar novas tecnologias ou falar em novos empregos; será necessário oferecer educação, capacitação e oportunidades reais para que as pessoas possam participar da nova economia.

Uma das áreas mais interessantes dos próximos anos será justamente a recuperação do que já degradamos. Normalmente, quando pensamos em desenvolvimento, pensamos em construir algo novo: uma fábrica, uma estrada, uma empresa, um empreendimento. Uma parte crescente da economia estará relacionada a recuperar solos, restaurar florestas, proteger nascentes, recuperar rios e requalificar áreas urbanas. Isso vai criar novas atividades econômicas e empregos para engenheiros, biólogos, agrônomos, técnicos, operadores de equipamentos, especialistas em geoprocessamento, monitoramento ambiental e desenvolvimento de tecnologias.

A indústria, por sua vez, será pressionada a reduzir desperdícios, emissões e consumo de recursos. Sensores e sistemas inteligentes acompanharão processos em tempo real, a Inteligência Artificial ajudará a identificar perdas e oportunidades de eficiência, e os gêmeos digitais permitirão testar alterações antes de realizá-las no mundo físico.

Mas sustentabilidade não significará simplesmente reduzir o consumo de energia dentro de uma fábrica. A análise será cada vez mais ampla: de onde vêm os materiais, como foram produzidos, quanto tempo os produtos duram, se podem ser reparados, reutilizados e reciclados. Essa mudança estará diretamente ligada ao conceito de Economia Circular, que deverá se tornar cada vez mais presente na indústria, no comércio e nos serviços.

O comércio também será transformado. Sistemas de Inteligência Artificial ajudarão a prever demandas e reduzir estoques desnecessários, plataformas digitais acompanharão cadeias de fornecimento e os consumidores terão mais acesso a informações sobre produtos e serviços. Produtos alugados em vez de comprados, equipamentos reparados e reutilizados, e novos mercados para itens recuperados.

Ao mesmo tempo, não acredito no desaparecimento do comércio físico. As pessoas não saem de casa apenas para comprar; saem para passear, encontrar amigos, comer, conhecer lugares e viver experiências. Por isso, cidades mais agradáveis, arborizadas e com espaços públicos de qualidade vão fortalecer uma economia baseada em convivência, cultura, gastronomia, turismo e lazer.

O setor público enfrentará um desafio especialmente complexo. Não será possível administrar as consequências das mudanças climáticas apenas depois que os problemas acontecerem. Os governos terão que trabalhar cada vez mais com prevenção, utilizando mapas digitais, sistemas de alerta, sensores, drones, satélites e Inteligência Artificial, mas também investindo em infraestrutura real. Drenagem, saneamento, habitação adequada, recuperação de encostas, áreas verdes e proteção de populações vulneráveis continuarão sendo fundamentais.

Um aplicativo não impedirá um deslizamento se as pessoas continuarem vivendo em condições de risco. Uma cidade verdadeiramente inteligente será aquela que conseguir combinar tecnologia digital, infraestrutura física e soluções baseadas na própria natureza.

Atividades altamente poluentes perderão espaço ou serão obrigadas a se transformar, processos industriais antigos serão substituídos e tarefas repetitivas automatizadas. Ao mesmo tempo, crescerá a demanda por profissionais ligados à eficiência energética, restauração ambiental, monitoramento climático, agricultura de precisão, economia circular, análise de dados ambientais, biotecnologia, geoprocessamento e operação de drones.

Não serão apenas empregos altamente especializados. Muitas oportunidades surgirão  em manutenção, recuperação, reciclagem, serviços ambientais, turismo sustentável, agricultura e atividades comunitárias. O desafio continuará sendo a educação. Não será suficiente criar uma economia mais sustentável se as pessoas não forem preparadas para participar dela.

A automação e a Inteligência Artificial vão aumentar a produtividade em diversos setores e, se conseguirmos produzir mais com menos recursos e menos horas de trabalho humano, teremos que repensar nossa relação com o tempo. Essa pode ser uma das melhores consequências da tecnologia, desde que os ganhos sejam distribuídos de maneira equilibrada.

Uma sociedade em que poucos acumulam todos os benefícios da tecnologia e milhões perdem renda não será sustentável. Mas uma sociedade capaz de transformar produtividade em redução de jornadas, novas oportunidades e mais qualidade de vida poderá dedicar mais tempo à educação, à família, à cultura, ao esporte, ao lazer e à participação social.

Isso também vai mudar a relação das pessoas com o trabalho ao longo da vida. Com uma população vivendo mais e permanecendo ativa durante mais tempo, muitos idosos continuarão trabalhando, mas de formas diferentes: em consultoria, mentoria, ensino, projetos temporários, empreendedorismo e atividades culturais. O futuro será marcado por uma combinação cada vez maior entre trabalho, aprendizagem permanente e tempo livre.

É justamente nesse cenário que acredito que cultura, arte, esporte, lazer e turismo ganharão uma importância econômica ainda maior. Em uma sociedade cada vez mais automatizada, aquilo que está ligado à experiência humana terá um valor especial.

A Inteligência Artificial poderá ajudar artistas, enriquecer experiências e criar novos formatos de entretenimento, mas continuará existindo um enorme valor em assistir a um jogo, participar de uma corrida, visitar uma floresta, conhecer uma cidade, ir a um espetáculo ou simplesmente encontrar outras pessoas.

A valorização da natureza poderá fortalecer o turismo ecológico, rural e de aventura, criando novas oportunidades econômicas. Mas teremos que proteger aquilo que queremos visitar. Não existe turismo sustentável em um ambiente destruído. A preservação ambiental será também uma forma de preservar atividades econômicas, empregos e qualidade de vida.

E, diante de tantas tecnologias, volto à pergunta que venho fazendo ao longo desta série: o que permanece? Permanecem as necessidades humanas e permanecem as condições básicas para a vida. Precisamos respirar, beber água, produzir alimentos, viver em cidades seguras e conviver com outras pessoas.

Precisamos também de cultura, beleza, lazer, esporte e contato com a natureza. Podemos construir sistemas digitais cada vez mais avançados e ambientes virtuais extraordinários, mas continuaremos precisando de árvores reais, rios reais, solos saudáveis e ecossistemas funcionando.

Na minha opinião, esse será um dos grandes aprendizados dos próximos anos: quanto mais avançarmos tecnologicamente, mais importante será proteger aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir.

Nos próximos cinco anos, veremos uma expansão acelerada da Inteligência Artificial, dos drones, dos satélites, dos sensores e dos sistemas digitais aplicados ao monitoramento ambiental e climático. Teremos mais dados, maior capacidade de identificar desmatamento e degradação, uma agricultura mais precisa, sistemas de alerta mais eficientes, novas oportunidades na economia circular e uma crescente demanda por empregos relacionados à sustentabilidade.

Mas também enfrentaremos eventos climáticos mais desafiadores, trabalhadores que precisarão ser requalificados, regiões vulneráveis que exigirão investimentos e uma pressão permanente sobre recursos naturais.

Para o Brasil, a oportunidade é enorme. Temos biodiversidade, florestas, agricultura, fontes importantes de energia renovável, universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia. Não precisamos escolher entre desenvolvimento e preservação.

O desafio será construir um novo conceito de desenvolvimento: produzir riqueza e conhecimento, gerar empregos e inovação, e também recuperar aquilo que foi degradado; utilizar tecnologia, mas compreender seus limites; aumentar a produtividade, mas distribuir melhor seus benefícios; melhorar cidades e serviços públicos, sem destruir os recursos naturais dos quais todos dependemos.

O ODS 13 e o ODS 15 nos lembram de uma realidade simples: não existe economia funcionando adequadamente em um planeta que não funciona adequadamente. A mudança climática e a degradação dos ecossistemas são limites reais para qualquer projeto de futuro.

Acredito que a grande transformação dos próximos anos não será apenas tecnológica. Será também uma transformação na nossa própria ideia de progresso. Durante muito tempo, progresso significou produzir mais, construir mais e consumir mais. Agora, progresso terá que significar também desperdiçar menos, recuperar mais, proteger melhor e viver melhor.

Um exemplo interessante de como tecnologia, educação e sustentabilidade podem se integrar está na própria Aranduland, a cidade virtual 3D (em construção permanente!) que venho desenvolvendo com foco nos 17 ODS (Ver link lá embaixo). Em vez de discutir temas complexos como mudanças climáticas, proteção das florestas, economia circular ou biodiversidade apenas por meio de textos e apresentações, poderemos utilizar ambientes imersivos e games educativos para mostrar situações, problemas e possíveis soluções de forma interativa.

Podemos aprender como recuperar uma área degradada, escolher espécies para reflorestamento, acompanhar a qualidade da água ou compreender como sensores e Inteligência Artificial ajudam a prevenir problemas ambientais.

Temos um Oráculo com Inteligência Artificial que pode transformar essas experiências em processos personalizados de aprendizagem, respondendo perguntas e adaptando conteúdos a diferentes públicos. Governos podem utilizar ambientes virtuais para capacitação e conscientização e projetos podem ser apresentados por meio de gêmeos digitais, conectando o mundo real ao virtual.

Mais do que criar uma cidade virtual bonita, o objetivo seria utilizar a tecnologia para uma finalidade concreta: ajudar pessoas a compreender problemas reais e imaginar soluções antes que os problemas se tornem ainda maiores.

Afinal, pensando nos ODS 13 e 15 e em tudo o que pode acontecer nos próximos cinco a dez anos, chego novamente a uma conclusão que considero fundamental para toda esta série: a Inteligência Artificial, os drones, os sensores e os ambientes virtuais serão cada vez mais poderosos.

E com toda essa inteligência e tecnologia, conseguiremos tomar decisões mais inteligentes para proteger a vida e construir um planeta melhor para quem vem depois de nós (e para nós mesmos aos 120, 130, 150 anos)?

Essa, no final, será uma das verdadeiras medidas do nosso progresso.

OBS1: Imagem feita com GEMINI

OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de tópicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade

Conheça (Aranduland | Uma cidade digital, sustentável e gamificada), uma cidade virtual focada nos 17 ODS, em construção permanente, sempre aberta a parcerias para cursos, games, experiencias e imersões, gêmeos digitais e informações.

*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.

Mais notícias para você

Pesquise no TI DO RIO