ODS 16 e ODS 17 — Paz, justiça, instituições eficazes e parcerias: como a tecnologia vai afetar a forma como resolvemos nossos problemas
Da série: O QUE VEM POR AÍ EM 5 ANOS? E OS ODS DA ONU?
Ao longo desta série, venho tentando olhar para os próximos cinco a dez anos utilizando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU como uma referência para compreender as grandes transformações que já estão acontecendo. Já falei sobre fome, saúde, educação, cidades, energia, economia circular, clima, biodiversidade e desigualdades.
Em todos esses temas aparece uma mesma constatação: a Inteligência Artificial, a automação, a robótica, os dados, as plataformas digitais e as novas formas de comunicação estão mudando a economia e a vida das pessoas em uma velocidade que provavelmente será ainda maior do que imaginamos.
Mas existe uma questão que atravessa todos os demais ODS: quem tomará as decisões, em que instituições podemos confiar e como diferentes pessoas, organizações, empresas e países conseguirão trabalhar juntos?
É aqui que entram o ODS 16, voltado para a promoção da paz, da justiça e de instituições eficazes, responsáveis e inclusivas, e o ODS 17, que procura fortalecer os meios de implementação e as parcerias necessárias para alcançar os objetivos do desenvolvimento sustentável.
Na minha opinião, esses dois ODS serão cada vez mais importantes justamente porque estamos entrando em uma sociedade mais tecnológica, mais conectada e, ao mesmo tempo, potencialmente mais complexa. A tecnologia poderá tornar instituições mais eficientes, ampliar o acesso à justiça, reduzir burocracias e aproximar governos dos cidadãos. Podem facilitar parcerias entre universidades, empresas, governos, organizações sociais e instituições internacionais. Mas podem desinformar, manipular, vigiar excessivamente e concentrar poder.
A grande questão não será apenas desenvolver tecnologias cada vez mais inteligentes. Será construir instituições suficientemente inteligentes, responsáveis e humanas para utilizá-las.
Durante décadas, grande parte da relação entre uma pessoa e o Estado foi baseada em documentos, formulários, filas, deslocamentos e processos lentos. Nos próximos anos, essa realidade continuará mudando rapidamente. Serviços públicos cada vez mais digitais, documentos integrados, processos administrativos automatizados e sistemas de Inteligência Artificial analisando informações e organizando demandas.
Para o cidadão, isso pode representar uma enorme melhoria com menos burocracia e menos tempo perdido. Mais acesso à informação e serviços disponíveis em diferentes horários e mais transparentes.
Tudo mais simples. Resolver problemas que antes exigiam vários deslocamentos agora utilizando apenas um celular. Pequenas empresas com menos burocracia. Governos utilizando dados para identificar necessidades e melhorar serviços.
Uma instituição será realmente eficaz utilizando ferramentas digitais para facilitar a vida das pessoas e sem abandonar quem precisa de atendimento humano. Em uma sociedade com populações envelhecendo, milhões de idosos continuarão ativos, trabalhando, estudando e utilizando tecnologias, mas sempre com muitas pessoas precisando de apoio para acessar alguns serviços.
A justiça também será profundamente afetada pela tecnologia. Sistemas inteligentes analisando grandes volumes de documentos, organizando processos, identificando informações relevantes e reduzindo o tempo gasto em atividades repetitivas. Profissionais do Direito com ferramentas capazes de realizar pesquisas e analisar grandes quantidades de informação com uma velocidade muito maior.
Várias atividades administrativas e repetitivas serão cada vez mais automatizadas. Ao mesmo tempo, crescerá a importância de profissionais capazes de interpretar situações complexas, negociar, mediar conflitos e tomar decisões que envolvem valores humanos.
Também teremos que enfrentar os riscos dos próprios algoritmos. Sistemas utilizados para avaliar pessoas, identificar riscos ou apoiar decisões podem reproduzir preconceitos existentes nos dados utilizados para treiná-los. A ideia de que uma máquina é automaticamente neutra será cada vez mais questionada.
O ODS 16 também trata da paz e da redução da violência, e essa será uma das áreas mais complexas da transformação tecnológica. Sistemas inteligentes vão ajudar na prevenção de crimes, na identificação de padrões e na organização de informações. Sensores e sistemas de comunicação vão melhorar respostas a emergências. Tecnologias digitais vão ajudar a proteger pessoas e ampliar a capacidade de investigação.
Ao mesmo tempo, a própria tecnologia criará novos riscos. Crimes digitais e fraudes utilizando Inteligência Artificial. Imagens, vídeos e vozes manipulados gerando desinformação e atingindo milhões de pessoas. Ataques contra infraestruturas digitais afetando empresas e serviços públicos.
A segurança do futuro será física e digital. E uma sociedade mais segura não será aquela que simplesmente instalar mais câmeras ou criar sistemas de vigilância cada vez mais invasivos. Segurança também dependerá de educação, oportunidades, redução de desigualdades, instituições confiáveis e capacidade de resolver conflitos.
Vozes reproduzidas artificialmente. Notícias falsas produzidas em grande escala. Nesse cenário, a confiança será um recurso econômico e social cada vez mais importante. As instituições, empresas e profissionais precisarão demonstrar responsabilidade e transparência.
A própria educação terá que mudar. Precisamos ensinar a avaliar fontes, verificar conteúdos, identificar manipulações e compreender como funcionam os algoritmos que influenciam o que vemos. A educação para a cidadania digital será tão importante quanto a alfabetização tecnológica.
Pensando no ODS 17, considero que ele será uma espécie de grande estrutura de ligação entre todos os outros objetivos. Nenhum país, governo, empresa ou universidade conseguirá, isoladamente, resolver problemas complexos como mudanças climáticas, pandemias, fome, pobreza, transformação tecnológica ou segurança digital.
A economia dos próximos anos será cada vez mais baseada em redes. Empresas trabalhando com universidades e estas trabalhando com governos. Startups desenvolverão tecnologias em parceria com grandes empresas. Organizações sociais participarão da implementação de projetos. Instituições internacionais compartilharão conhecimento e recursos. A palavra-chave será cooperação.
Empresas continuarão competindo e países defendendo seus interesses. Profissionais continuarão buscando melhores oportunidades. Mas a capacidade de criar alianças será cada vez mais importante. O futuro será de competição dentro de ecossistemas de cooperação. E isso vai mudar o mercado de trabalho.
Quando falamos sobre automação, muitas vezes pensamos apenas na substituição de empregos. De fato, determinadas funções repetitivas desaparecerão ou diminuirão significativamente. Processamento de documentos, atendimento básico, atividades administrativas, controle de informações e outras tarefas operacionais serão cada vez mais automatizados.
Ao mesmo tempo, crescerá a necessidade de profissionais capazes de conectar diferentes mundos. Pessoas que compreendam tecnologia e políticas públicas. Profissionais que consigam traduzir problemas sociais em projetos tecnológicos. Especialistas em segurança digital e governança de dados. Mediadores e educadores para cidadania digital. Especialistas em ética e uso responsável da Inteligência Artificial.
O profissional do futuro será, muitas vezes, menos especializado em uma única atividade isolada e mais capaz de trabalhar entre diferentes áreas. Isso reforça uma ideia que venho repetindo: não bastará aprender uma profissão. Será necessário aprender a aprender durante toda a vida.
As pessoas terão diferentes empregos, projetos e atividades. Poderão mudar de área mais de uma vez. Trabalhar presencialmente e remotamente. Participar de projetos internacionais sem necessariamente sair de sua cidade. A tecnologia permitirá isso, mas será necessário acesso à educação e à conectividade.
Nos próximos anos, será cada vez mais difícil imaginar empresas funcionando completamente isoladas das questões sociais e ambientais. A reputação será mais importante. A transparência será mais exigida.
Consumidores terão maior capacidade de compartilhar informações. Investidores e parceiros observarão riscos. E as empresas serão pressionadas a demonstrar responsabilidade.
A tecnologia ajudará a acompanhar cadeias produtivas, medir impactos e organizar informações. Sistemas inteligentes identificando desperdícios, riscos e oportunidades. Mas, novamente, será necessário evitar que a tecnologia seja utilizada apenas para produzir relatórios bonitos.
A verdadeira transformação vai estar nas decisões. Uma empresa pode produzir mais com menos pessoas graças à automação. Isso aumentará produtividade e lucro. Mas, e a questão social? O que acontecerá com os trabalhadores cujas atividades foram substituídas?
Empresas, governos e instituições sociais e educacionais terão que participar da preparação das pessoas para novas atividades. A responsabilidade será compartilhada. Essas organizações conhecem diretamente necessidades das pessoas e, se trabalham isoladamente, os resultados são menores. O ODS 17 representa justamente a necessidade de construir pontes.
Nos próximos anos, veremos uma expansão de projetos envolvendo diferentes instituições. Uma solução tecnológica poderá ser desenvolvida por uma empresa, testada com uma universidade, aplicada em parceria com um governo e acompanhada por organizações da sociedade. Esse modelo será cada vez mais importante em áreas de grande crescimento como saúde, educação, clima, cidades, cultura, cooperativismo e inclusão social.
A capacidade de formar boas parcerias será uma competência. E saber trabalhar em rede será uma habilidade cada vez mais valorizada.
O trabalho remoto e as plataformas digitais já estão modificando a geografia econômica. Uma pessoa poderá trabalhar para uma empresa localizada em outro país sem sair de sua cidade. Um professor poderá ensinar estudantes de diferentes regiões. Um pequeno empreendedor poderá vender produtos ou serviços para outros mercados.
Isso vai criar oportunidades importantes para países e regiões que conseguirem formar profissionais e desenvolver boas infraestruturas digitais.
Qual é o risco? As grandes empresas de tecnologia concentrando ainda mais conhecimento, dados e riqueza. Países que apenas consomem tecnologias desenvolvidas em outros lugares poderão se tornar dependentes.
Por isso, as parcerias internacionais não podem significar apenas importar soluções. Será necessário compartilhar conhecimento, formar profissionais, desenvolver pesquisa e criar capacidade local de inovação. A cooperação internacional será mais importante, mas a capacidade de cada país participar ativamente da criação de conhecimento também será fundamental.
A pergunta que tenho feito em praticamente todos os artigos desta série é: Se teremos governos digitais, Inteligência Artificial, serviços automatizados, redes globais e plataformas conectando bilhões de pessoas, o que permanece?
Permanecem as pessoas. Permanecem as necessidades humanas. Permanecem os conflitos, mas também a possibilidade de diálogo. Permanecem a necessidade de confiança, de justiça e de pertencimento.
A tecnologia pode aproximar pessoas geograficamente distantes, mas não substitui a convivência real. Podemos trabalhar de qualquer lugar, mas continuaremos querendo cidades agradáveis para viver. Queremos acessar cultura digitalmente, mas continuamos indo a shows, museus, teatros e eventos esportivos. A realidade virtual (RV) está aí mesmo, mas continuaremos viajando e precisando de amizade e relacionamentos humanos.
Acredito que uma sociedade mais produtiva terá uma grande oportunidade: utilizar os ganhos da tecnologia para trabalhar de forma diferente e viver melhor.
Se a Inteligência Artificial e a automação aumentarem significativamente a produtividade, a humanidade terá que decidir o que fazer com esse ganho. Podemos simplesmente concentrar riqueza e criar mais desigualdade. Ou podemos criar condições para reduzir jornadas e ampliar oportunidades. Mais tempo pode significar mais educação, mais convivência familiar, mais arte, mais esporte, mais lazer e mais viagens.
Isso terá grande impacto na economia. A, assim chamada, economia da experiência crescerá. Turismo. Cultura. Gastronomia. Esporte. Entretenimento. Atividades relacionadas à vida saudável. Em uma sociedade onde várias tarefas serão realizadas por máquinas, aquilo que está ligado à experiência humana vai ganhar um valor ainda maior.
O desafio será garantir que essa qualidade de vida não seja um privilégio de poucos. Não adianta termos tecnologia suficiente para produzir “mais com menos”, se a maior parte das pessoas continuar sem acesso à renda, à educação e à segurança. O verdadeiro sucesso tecnológico será transformar produtividade em bem-estar.
Pensando nos próximos anos, acredito que veremos governos mais digitais, empresas mais automatizadas, serviços mais conectados e sistemas de Inteligência Artificial cada vez mais presentes.
Mais empregos desaparecendo e outros surgindo. Funções administrativas sendo automatizadas, enquanto crescem atividades relacionadas à tecnologia, criatividade, relacionamento humano, segurança, educação, mediação e gestão de redes.
Essa transformação exigirá instituições capazes de acompanhar a velocidade das mudanças. Leis criadas para uma sociedade anterior não servem mais. Governos precisarão compreender tecnologias que ainda estão surgindo. Empresas assumindo novas responsabilidades e universidades formando profissionais para empregos que ainda não existem. As pessoas precisarão aprender continuamente (Ver artigo sobre ODS 4).
Essa é uma das grandes mensagens do ODS 16 e do ODS 17: não conseguiremos enfrentar os desafios do futuro sozinhos. Precisaremos de instituições confiáveis, mais diálogo e parcerias. E precisaremos utilizar a tecnologia para conectar capacidades, e não apenas para aumentar eficiência.
Vejo em Aranduland, cidade 3d em desenvolvimento, (ver link lá embaixo) um exemplo prático de como os conceitos dos ODS 16 e 17 podem ser apresentados e experimentados de forma diferente. Uma cidade virtual 3D pode ser utilizada não apenas como ambiente tecnológico, mas como um espaço de aprendizagem, diálogo, simulação e construção de soluções.
Por exemplo, em uma área de Aranduland, participantes poderiam assumir diferentes papéis em uma cidade: cidadãos, gestores públicos, empresários, professores, pesquisadores, organizações sociais e representantes de comunidades. Diante de um problema comum — uma crise ambiental, uma transformação econômica, uma emergência de saúde ou um conflito social — cada participante teria informações e interesses diferentes e precisaria construir soluções por meio da negociação e da cooperação.
Fica aqui a provocação: vamos utilizar uma tecnologia avançada não apenas para automatizar processos, mas para criar melhores condições de cooperação entre pessoas e instituições.
Ao final, quando penso nos ODS 16 e 17 e nos próximos cinco a dez anos, com máquinas mais inteligentes, governos mais digitais, empresas mais automatizadas e redes globais cada vez mais conectadas, seremos capazes de construir sociedades mais justas?
A tecnologia pode ajudar, mas não vai decidir sozinha e nem vai criar automaticamente instituições confiáveis. As plataformas além de conectar milhões de pessoas, terão que garantir cooperação.
O verdadeiro avanço dos próximos anos não deveria ser medido apenas pela capacidade das máquinas ou pelo número de processos automatizados, e sim pela nossa capacidade de reduzir conflitos, ampliar o acesso à justiça, fortalecer instituições e parcerias para enfrentar problemas que nenhum país, empresa ou pessoa conseguirá resolver sozinho.
Uma sociedade verdadeiramente avançada será aquela que conseguir utilizar sua tecnologia para produzir mais confiança, cooperação, justiça, oportunidades e, principalmente, uma vida melhor para mais pessoas.
OBS1: Imagem feita com GEMINI
OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de tópicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade
Conheça (Aranduland | Uma cidade digital, sustentável e gamificada), uma cidade virtual focada nos 17 ODS, em construção permanente, sempre aberta a parcerias para cursos, games, experiencias e imersões, gêmeos digitais e informações.
*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.



